quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os Valores



Os valores definem-se como sendo entidades virtuais; não existem na realidade, não são propriedade dos objectos, são atribuídos às coisas por um sujeito. Valor implica sempre uma relação de um sujeito com um objecto, ao qual este atribui um determinado valor.
Também se apresentam como entidades ideais que representam a perfeição e o seu oposto. Na perseguição de valores, o Homem vai-se aperfeiçoando.
As características fundamentais dos valores são a hierarquia e a polaridade.
Primeiro, os valores apresentam-se sempre numa escala que vai do menos para o mais. A esta ordenação qualitativa dos valores dá-se o nome de hierarquização e varia de pessoa para pessoa; cada um tem a sua escala de valores que vai influenciar as suas escolhas.
Por outro lado, os valores aparecem sempre com uma dupla face: positiva e negativa. A um pólo positivo (por exemplo: bonito) opõe-se sempre um pólo negativo (no exemplo: feio).
Existem juízos de facto e juízos de valor. Pelos juízos de facto entendemos os que são descritivos ou de existência. Descrevem e informam acerca da realidade concreta sem emitir preferências e apreciações. Podem ser facilmente considerados verdadeiros ou falsos, conforme se adequam ou não à realidade, e podem ser objecto de verificação empírica. Isto é, em relação ao juízo: "A árvore deu frutos", que é um juízo de facto, eu posso olhar e verificar se é verdade ou não verdade.
Os juízos valorativos julgam factos e realidades em função de preferências axiológicas.
Estes juízos não são verificáveis empiricamente e não são, normalmente, alvo de consensos. Podem ser de apreciação moral, estética, religiosa, vital, de utilidade, entre outros.
Os valores são guias de acção, aquilo que “põe em movimento” os comportamentos, as condutas das pessoas. Na nossa vida estamos sempre a fazer juízos de valor e a guiarmo-nos por eles.
Eles orientam a vida e marcam a personalidade; uma pessoa define-se, diz quem é, em função dos valores que tem.
Os valores orientam as nossas preferências; eu prefiro isto ou aquilo em função dos valores que tenho. Por exemplo, se a igualdade de direitos é um valor importante para mim, eu vou optar por não discriminar as pessoas pela sua raça.
Por causa dos valores as coisas apresentam-se-me de forma diferenciada. Ou seja, o mundo não é todo igual para mim, há coisas de que eu gosto e coisas de que eu não gosto; há coisas que eu admiro e coisas que não; há coisas que eu respeito e outras que não respeito. É em função deste colorido que os valores conferem ao mundo, que o Homem escolhe e age.
Assim, é o valor que confere sentido à vida, serve para a nossa orientação pessoal.
Em relação à axiologia, teoria dos valores, podemos observar a tese da subjectividade, que se opõe à da objectividade dos valores, e a da historicidade, que se opõe à perenidade dos valores.
A tese da perenidade defende que o valor não depende da época histórica. A perenidade é do valor e não dos objectos em que ele se manifesta. Por exemplo, a honestidade e amizade sempre foram considerados valores ao longo do tempo, as suas manifestações, exemplos e realizações é que podem sofrer alterações.
A tese da historicidade defende que os valores mudam conforme a época histórica.
Isto está ligado a uma ideia de relativismo axiológico que defende que o que é ou não valor é completamente relativo. Tudo muda, e os valores também!
Podemos afirmar, como tese intermédia, que apesar dos valores sofrerem obviamente uma influência do tempo, até surgem novos valores, há algo de perene nos valores; amizade será sempre um valor importante, embora o seu conceito sofra inevitavelmente alterações.
As teses da subjectividade ou objectividade diferem porque uma defende que se gosta das coisas porque elas têm valor, o valor existe como algo de absoluto, independentemente das coisas e dos homens, que apenas os descobrem, enquanto a outra afirma que as coisas assumem valor porque um sujeito gosta delas; assim o valor é sempre uma criação do Homem, sendo dependente da apreciação do sujeito. Está presente no ditado popular: "Quem feio ama, bonito lhe parece."
A tese que concilia as duas posições defende que os valores não existem independentemente das coisas, eles apenas valem, não têm existência independente. Mas são propriedade real das coisas que despertam os valores. No entanto, as coisas só são valiosas potencialmente, apenas adquirem realmente valor quando entram em interacção com o Homem. Só nesta relação é que os valores fazem sentido.
Finalmente, hoje em dia fala-se muito da crise de valores e da emergência de novas polarizações.
Vivemos uma época de grandes mudanças a todos os níveis. Por esse motivo, há também a emergência de novas polarizações de valores.
Assim, numa fase de revisão daquilo que era considerado valor, a que muitos autores chamam Época de Crise, porque há questionamento, alterações drásticas, há enormes mudanças, e na mudança há sempre algo de instabilidade, o que é normal e salutar (crise em grego significa questionamento e decisão; não é um termo negativo). Surge a consciência de que aspectos que não faziam parte das nossas preocupações passam a fazer. Deste modo, não há apenas diferenças na hierarquia dos valores clássicos, mas há mesmo valores que não existiam e passam a existir. Estamos a referir-nos, por exemplo, à ecologia. Se o planeta não estava em risco é óbvio que as pessoas não andavam preocupadas com o assumir deste valor. Hoje, os riscos inerentes à tomada de atitudes pouco correctas são tais que há a necessidade de sensibilizar todo o mundo para esta questão. Assim, a ecologia apresenta-se como um valor contemporâneo.

In, www.edusurfa.pt, Porto Editora

Fonte: http://filosofiavivapro.blogs.sapo.pt/31044.html
 

domingo, 23 de setembro de 2012

A arte de nosso tempo, por Ferreira Gullar

 

Uma leitura possível da história das artes visuais de que resultaram as manifestações contemporâneas identificará a invenção da fotografia como um fator decisivo desse processo.
A crítica, de modo geral, há muito associa ao surgimento da fotografia a mudança da linguagem pictórica, de que resultou o movimento impressionista.
É uma observação pertinente, desde que se tenha o cuidado de não simplificar as coisas, ou seja, não desconhecer a existência de outros fatores que também influíram nessa mudança. Um desses fatores foi a descoberta da cor como resultante da vibração da luz sobre a superfície das coisas.
Noutras palavras, o surgimento do impressionismo que constituiu uma ruptura radical com a concepção pictórica da época estava latente na pintura de alguns artistas de então, como, por exemplo, Eugène Delacroix e Édouard Manet, que já anunciavam a superação de certos valores estéticos em vigor. Não resta dúvida, no entanto, que a invenção da fotografia, por tornar possível a fixação da imagem real com total fidelidade, impunha o abandono do propósito de conceber a pintura como imitação da realidade.
Se tal fato não determinou, por si só, a revolução impressionista, sem dúvida alguma libertou a pintura da tendência a copiar as formas do mundo real e, assim, deixou o pintor livre para inventar o que pintava.
Pretendo dizer com isso que, se a cópia da realidade, pela pintura, se tornara sem propósito, isso não implicaria automaticamente em pintar como o fez Monet, ao realizar a tela "Impression, Soleil Levant", que deu origem ao impressionismo. Poderia ter seguido outro rumo.
Mas, se o que nasceu naquelas circunstâncias foi a pintura impressionista, houve razões para que isso ocorresse. E essas razões, tanto estavam implícitas na potencialidade da linguagem pictórica daquele momento, como no talento de Monet, na sua personalidade criadora. É que assim são as coisas, na vida como na arte: fruto das probabilidades que se tornam ou não necessárias.
A verdade, porém, é que, se não houvesse surgido uma maneira de captar as imagens do real de modo fiel e mecânico, o futuro da pintura (e das artes visuais em geral) teria sido outro. A pintura, então, livre da imitação da natureza, ganha autonomia: o pintor então podia usar de seus recursos expressivos para inventar o quadro conforme o desejasse e pudesse.
Como consequência disso, não muito depois, nasceram as vanguardas artísticas do século 20: o cubismo, o futurismo, o expressionismo, o dadaísmo, o surrealismo todos eles descomprometidos com a imitação da realidade.
Mas essa desvinculação com o mundo objetivo terá consequências: a liberdade sem limites levará, de uma maneira ou de outra, à desintegração da linguagem artística, particularmente a da pintura.
Os dadaístas chegam a realizar quadros mais determinados pelo acaso do que por alguma qualquer intenção deliberada do autor. E se a arte podia ser fruto de tamanha gratuidade, não teria mais sentido pintar nem esculpir. O urinol de Marcel Duchamp é resultado disso. Por essa razão, ele afirmou: "Será arte tudo o que eu disser que é arte". Ou seja, tudo é arte. Ou seja, nada é arte.
Por outro lado, a fotografia, que nasceu como retrato do real, foi se afastando dessa condição e, como a pintura, passou também a inventá-lo. Por outro lado, ela ganhou movimento e se transformou em cinema, que tem como principal conquista a criação de uma linguagem própria, totalmente distinta da de todas as outras artes.
Cabe aqui uma observação: a pintura não apenas fazia o retrato das pessoas, como também mostrava cenas da vida, como as ceias, os encontros na alcova, as batalhas, os idílios etc. Quanto a isso, mais que a fotografia, o cinema criou, com sua linguagem narrativa, um mundo ficcional, que nenhuma outra arte e tampouco a pintura é capaz de nos oferecer.
A meu ver, o cinema, superando o artesanato, é a grande arte tecnológica, que criou uma linguagem própria condição essencial para que algo seja considerado arte--, geradora de um universo imaginário inconfundível, de possibilidades inesgotáveis, sofisticado e ao mesmo tempo popular. O cinema é, sem dúvida, a arte de nosso tempo.


Ferreira Gullar é cronista, crítico de arte e poeta. Escreve aos domingos na versão impressa de "Ilustrada".
Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ferreiragullar/1157209-a-arte-de-nosso-tempo.shtml

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Triunfo do método, por Hélio Schwartsman

É de 99,99995% ("cinco sigmas") a probabilidade de que cientistas tenham detectado o bóson de Higgs -também conhecido como "partícula de Deus"- ou pelo menos algo muito parecido com ele. Se confirmada, é a mais importante observação no campo da física de partículas dos últimos 40 anos.
Escarafunchando suas propriedades, cientistas creem que poderão vislumbrar fenômenos desconhecidos e propor novas teorias, avançando para além do Modelo Padrão, às vezes chamado de "teoria de quase tudo", já que explica quase tudo que existe no Universo: matéria, energia e suas principais interações. As notáveis exceções são certos aspectos da gravidade e a energia escura.
O interessante na provável descoberta do bóson de Higgs é que ela consagra não só o Modelo Padrão como também o método científico.
Durante cinco décadas, essa partícula existiu apenas como previsão do modelo teórico, sem nenhuma corroboração empírica. Baseava-se em alguma matemática e muita fé dos cientistas na correção do Modelo Padrão em suas linhas gerais. A partícula de Deus, exceto por detalhes de forma lógico-matemática, era indistinguível de uma peça de literatura fantástica ou de um juízo religioso.
O problema é que o ser humano é uma espécie excessivamente criativa. Experimentos neurológicos mostram que, quando fatos desconexos são apresentados, o cérebro tende a uni-los por meio de narrativas. Elas não têm de ser verossímeis nem coerentes. Embarcamos nelas porque essa é a forma pela qual pensamos.
A moral da história é que devemos nos acautelar contra nossas ideias. Aí entra o método científico. Ele as mantêm sob eterna suspeita. Nada é mais que uma hipótese até que tenha sido corroborado por evidências empíricas. E, mesmo depois, torna-se no máximo uma verdade provisória, sujeita a ser falseada a qualquer instante. Ao menos em teoria, o método científico é o oposto do dogma. 

helio@uol.com.br

Fonte: Folha 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Do sujeito Néscio ao sujeito cognoscente


Com a atual educação pública, o dito de que "nascemos simples e ignorantes" será complementado com "nascemos simples e ignorantes, e assim permaneceremos", pois a palavra ignorante é derivada do grego gno, que é aplicada a ideia do saber, e o prefixo i é uma negação dessa ideia.
Com a atual educação pública, não é trabalhado o saber a seus alunos – saber esse que deveria levá-los a um protagonismo e criticidade. Essa educação trabalha mais a alienação e o "emburrecimento". Isso porque ela se esbarra na burocracia, na corrupção, na falta de ética de muitos políticos, na perda da dignidade do educador, na baixa autoestima, na omissão da família, no descaso da sociedade, no excesso de violência e na não “reprovação”, entendida de maneira equivocada pelos pseudos-educadores.

Ela deveria ser como uma bússola, e esta deveria sempre ter como norte a cidadania, o protagonismo, a criticidade, o humanismo, a socialização e a equidade, mas essa bússola lembra um pouco a do Capitão Jack Sparrow (interpretado pelo ator Johnny Depp no filme Piratas do Caribe). Os personagens que fazem parte das aventuras desse capitão veem a bússola como um objeto e até mesmo uma ferramenta sem relevância, simplesmente por estar quebrada, mas eles não percebem que essa bússola é diferente das outras, ela aponta sempre para o que você mais quer no mundo. E, se tratando da educação, o que os políticos mais querem em nosso País é estatística; são números altos demonstrando que a escolaridade dos estudantes tem se elevado e trazendo, com essa hipocrisia, alguns analfabetos e um alto índice de analfabetismo funcional com diplomas de 1º e 2º graus, e um déficit em letramento além da capacidade para se reso lver problemas cotidianos, implicando consequentemente em futuros maus profissionais.

Esses formandos e/ou recém-formados servirão para aumentar ainda mais essa massa de manobra, tratados como gado marcado e destinados a uma medíocre existência devido a uma manipulação desse nosso sistema falho, corrupto e corruptor, que violenta a dignidade dos poucos que resolvem deixar cair a máscara da alienação, a ponto de não iludir-se pela cortina de fumaça com resultados manipuláveis e equivocados.

Será que ainda poderemos chamar nossos discentes de educandos ou apenas de estudantes? Estudantes por estarem em uma sala de aula, sendo simplesmente adestrados nos princípios mais básicos da educação, pois o ato de educar engloba mudança de comportamento, implica em um devir e em uma criticidade e em uma cognição, o que vem a reforçar o sujeito como ser cognoscente.

Por sorte, temos ainda bons profissionais da educação. Apesar de serem a minoria, eles continuam lutando e não sonhando, pois a grande maioria vive de sonhos e isso diferencia o bom do medíocre, visto que os bons lutam, são proativos e protagonistas de uma educação que faz a diferença, elevando assim a dignidade do povo brasileiro e sendo o diferencial nesse nosso sistema, apesar de a estatística colocar todos os educadores em um mesmo saco e generalizar a incompetência e a falta de profissionalismo como se fosse um problema de todos os profissionais.

Com todos esses reveses, os bons educadores são como estrelas em um universo frio e escuro de indiferenças.

Wolmer Ricardo Tavares
www.wolmer.pro.br

Fonte: (Profissão Mestre e Gestão Educacional - Jornal Virtual - Ano 9, No 208 - 01/04/2011)
  Autor deste artigo: Wolmer Ricardo Tavares

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